Um levantamento do Instituto Lado a Lado pela Vida, com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS), revela que 89,6% dos diagnósticos de câncer de pulmão no Brasil em 2023 ocorreram em estágios 3 e 4, quando as chances de cura são reduzidas. Dos 14.145 casos analisados, 7.267 pacientes já estavam com a doença avançada, enquanto apenas 698 (10,4%) foram identificados nas fases iniciais.
O oncologista Igor Morbeck, membro do comitê científico do instituto, alerta que a doença é silenciosa e que a falta de um programa de rastreamento contribui para o diagnóstico tardio. “Quando os sintomas aparecem, eles são comuns a outras condições, como tosse, falta de ar ou um quadro que simula gripe, o que faz as pessoas protelarem a busca por ajuda”, explicou em entrevista à Agência Brasil.
Morbeck destaca que a tomografia anual está disponível no SUS e é recomendada para tabagistas e ex-tabagistas, principais grupos de risco. No entanto, ele critica a ausência de políticas públicas direcionadas: “Os pacientes ficam vulneráveis, procurando serviços básicos só quando têm sintomas, e o atraso no diagnóstico é ainda maior”.
O estudo também aponta falhas na qualidade da informação oncológica: em 40% dos registros, não há dados sobre o tamanho do tumor ou metástase. Para o médico, um raio X de tórax é insuficiente, e muitos pacientes recebem antibióticos sem um diagnóstico adequado.
O tabagismo é a principal causa, responsável por cerca de 85% dos casos, mas fatores como poluição e exposição química também exigem atenção. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 35.380 novos casos por ano no triênio 2026-2028, e em 2024 a doença matou 32.555 pessoas no país.
A campanha Respire Agosto, criada pelo instituto, busca conscientizar sobre a prevenção. A paciente Mônica Chain Montone, que venceu a doença duas vezes, reforça a importância do diagnóstico precoce: “Que eu sirva de alerta. É possível ter cura se descobrir cedo”.